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Segunda quinzena de maio terá ar polar forte para o Brasil

A frente fria que avançou sobre o Brasil no fim semana do Dia das Mães não trouxe muito chuva, mas sua massa polar impactou a América do Sul com moderada a forte intensidade. Foi a primeira massa polar que conseguiu dar um “ar outonal”  e esfriar a Argentina, o Paraguai, o Uruguai, a Bolívia e o Brasil.

Como o deserto do Saara participa do regime de chuvas da Amazônia, a 5 mil km de distância

Cientistas explicam como a poeira vinda do deserto do norte da África influencia na formação de nuvens da floresta amazônica.

 Pouco mais de 5,3 mil km e o Oceano Atlântico separam as cidades de Manaus (AM) e Nouakchott, a capital da Mauritânia, no deserto do Saara. Apesar da distância, o deserto do norte da África e a floresta amazônica têm uma relação mais estreita do que senso comum nos leva a acreditar.

  Nuvens de poeira e de vapor d'água sobre o deserto do Saara | Foto: Nasa Earth Observatory
Foto: BBCBrasil.com

TUPI OR NOT TUPI… A QUESTÃO É CLIMÁTICA

Novo estudo mostra como a maior incidência de chuvas expandiu a floresta tropical e ajudou os Tupis-Guaranis a conquistarem boa parte da América do Sul

REINALDO JOSÉ LOPES


Ajornada que transformou vastas áreas da América do Sul em domínio quase absoluto dos povos Tupi-Guarani provavelmente foi impulsionada por uma fase de alterações climáticas e ambientais entre 3 000 e 2 000 anos atrás, aponta um novo estudo. Nesse período, o aumento da umidade no território sul-americano, segundo a pesquisa, favoreceu a expansão de florestas tropicais, justamente o ambiente onde os Tupi-Guarani (um grupo originário das matas do sudoeste da Amazônia) surgiram como etnia.

O estudo, publicado por uma equipe internacional de pesquisadores na revista científica The Holocene, é mais um exemplo de como a arqueologia tem levado a uma espécie de inversão de papéis da região amazônica, ao menos do ponto de vista pré-histórico. Hoje uma das áreas mais esparsamente povoadas do continente, a Amazônia guarda muitas pistas de ter sido, no passado, um núcleo dinâmico de crescimento populacional e complexidade social e política, que “exportava” sua cultura a outros pontos da América do Sul. “Quando os europeus chegaram aqui, talvez fizesse mais sentido pensar no Sudeste ou no Nordeste como regiões periféricas, e não centrais, se comparadas à Amazônia”, disse o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da USP, que não participou da nova pesquisa, mas é um dos principais estudiosos do passado amazônico no mundo.

“Há uma ideia ainda muito forte entre os pesquisadores de que a gente não teria tido essas grandes expansões culturais e linguísticas pré-históricas na América do Sul, nada que fosse similar aos indo-europeus [grupo que deu origem à maior parte das culturas da Europa, do Irã e da Índia], ou a certos grupos da África. Quando a gente olha com calma, porém, percebe que ocorreram expansões sul-americanas que não ficam nada a dever a esses processos do Velho Mundo”, afirmou Jonas Gregorio de Souza, pesquisador brasileiro que trabalha na Universidade de Exeter, no oeste da Inglaterra, e é um dos autores da nova análise. O coordenador do trabalho é o uruguaio José Iriarte, também de Exeter.

Iriarte, Souza e companhia deram ao artigo que descreve seus achados o título de Out of Amazonia (“a partir da Amazônia”), um trocadilho com Out of Africa, a teoria, hoje bastante consolidada entre os paleoantropólogos, de que os seres humanos modernos teriam surgido no continente africano e de lá se espalhado pelo planeta. No trabalho, eles se concentraram em tentar explicar a distribuição geográfica dos grupos Guarani, e não de todos os Tupi-Guarani, por ser uma metodologia mais confiável, explica Souza. “Os dados paleobotânicos e paleoclimáticos [sobre a vegetação e o clima do passado] são muito mais completos no caso da parte sul da distribuição deles, que era o território Guarani na época do contato com os europeus.”
A origem amazônica desses povos é bem aceita há décadas. Uma das principais pistas vem da linguística e tem a ver com a diversidade de idiomas da família Tupi, que perfazem cerca de sessenta línguas e podem ser divididas em dez subfamílias. Acontece que só uma dessas subfamílias, justamente a Tupi-Guarani, pode ser encontrada fora da Amazônia, e nada menos que metade delas existe apenas na atual Rondônia, como mostra o mapa abaixo.
Distribuição das línguas da família Tupi. Em roxo, as subfamílias originais amazônicas; o vermelho e o verde correspondem à família Tupi-Guarani, com o subgrupo Guarani em verde.
Em geral, quando a maior parte da variedade linguística de um grupo está concentrada num único local, faz sentido imaginar que tal região é o berço daquele conjunto de línguas, pois ali houve tempo suficiente para que a diferenciação entre dialetos emergisse (mal comparando, é como o DNA, que sofre mutações inexoráveis com o passar dos anos). Os idiomas Tupi-Guarani do Sul e do Sudeste seriam como o português no Brasil atual: recém-chegados e relativamente homogêneos que deixaram seus parentes para trás (no caso do português, as outras línguas europeias derivadas do latim).
Quando Cabral aportou na Bahia, falantes do grupo se espalhavam por uma monumental faixa litorânea que ia, praticamente sem interrupções, da foz do Amazonas ao Uruguai (a divisa entre os Tupis propriamente ditos e os Guaranis ficava mais ou menos no litoral sul de São Paulo, perto do atual município de Cananeia). Um pouco mais ao norte, havia representantes dessa gente até no Amapá; no interior do continente, eles tinham ocupado trechos da Bolívia, boa parte do Paraguai (onde, é claro, o guarani ainda é idioma oficial) e até os arredores da moderna Buenos Aires.